
Já virou clichê dizer que a única certeza da vida, é a morte. Sem morte não há vida, a morte alimenta a vida, num ciclo harmonioso.
Terça-feira, última, presenciei uma das experiências biológicas que no alto dos meus 25 anos nunca imaginei que poderia acontecer literalmente ao meu lado. Estava eu, no meu costumeiro almoço, entre a minha quinta e sexta garfada, e meu avô e seus 84 carnavais a ler o seu jornal. Um barulho de jornal ao vento acusava algo de errado, eram as mãos trêmulas do ancião, estava em estado de choque. Um rubor sem igual. Diante de tal circunstância, O QUE FAZER?? 911, chorar, rezar, boca-a-boca, band-aid?? Tirei sua pulsação: 90 batimentos por minuto para um idoso sentado, pareceu-me ser muito. Levamo-lo ao hospital, mal ele se agüentava com as próprias pernas. Atravessamos a cidade. O trânsito fluía. Quanto mais nos aproximávamos do PS, ele recobria suas forças proporcionalmente. Prontamente atendidos, tiraram sua pressão, a essa altura do campeonato estava 15-9, razoavelmente hipertenso. Testes laboratoriais de rotina foram feitos... tudo normal... COMO NORMAL? Ele perdeu os sentidos, prostradíssimo! Quem entende a vida? Uma hora achamos que ela nos pertence, outra hora, ela nos mostra que é tudo passageiro, estamos a mercê de seus caprichos. Um sopro que nos dá vida, uma brisa qualquer pode nos levar o último suspiro. Um tombo, uma bala perdida, um carro na contramão, um coágulo inoportuno, viroses famigeradas... morremos todos os dias aos poucos, alguns são acelerados pela solidão, outros pela fome, desgosto... mas a cada dia que nasce temos a chance de renovar nossos votos com a vida, fazendo o que achamos ser o certo, por vezes não fazendo nada, vamos com a maré, deixando a poesia da vida, versada e cantada aos poetas... O senhor meu avô passa bem no momento, continua a cuidar das suas flores, a responder suas cartas e a ir a feira Sábado de manhã. Singelo assim, vai vivendo e gostando. O que eu quero saber é: qual a notícia que ele estava lendo naquela hora?
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